Escritos de Rafael Perfeito

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terça-feira, 5 de junho de 2012

Respeito

Goya

O moleque descia do morro do Pavãozinho em direção à praia de Copacabana, desgarrado, feliz, ignorando os gritos da mãe.

No sinaleiro, já perto da Avenida Atlântica, trombou com e quase derrubou um senhor velhinho, da silhueta grave. A mãe o alcançou e disse: "Peça desculpas ao senhor, Dorival. Correr na rua é falta de educação e você tem de respeitar os mais velhos!"

- Desculpa! - gritou o menino alegre, olhando em direção ao senhor enquanto corria para atravessar a rua e sumir na areia.

O sinal vermelho ardia. O idoso passou lentamente na frente dos carros, a bengala a pressionar o chão com mais força.

- Crioulo safado! Se fosse na época da Revolução eu te torturaria até a morte! - pensou, relembrando os áureos tempos.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

A bunda


18 horas. Estou sentado em uma cadeira reclinável na emergência esperando a medicação. Febre e garganta fechada. Ótimo acontecimento pra não ir à escola e ver Fluminense x Boca Juniors na tv, logo mais.

Observo as pessoas em seus pequenos dramas hospitalares enquanto dou discretas gargalhadas com o Bukowski. Na poltrona a meu lado um velho gesticula, seu soro já acabou há muito tempo. Faz menção de que arrancará tudo e irá embora quando uma das enfermeiras, uma grandona que deve aplicar terríveis injeções, o ignora. Trocamos aquele olhar de: "É brincadeira?".

Nesse momento reparamos em um casal à nossa frente. Ele, uns 27 anos, deitado, soro no braço, enorme, físico de jogador de basquete amador, olhar grato e meigo, muito meigo, dirigido ao dono de pequeninas mãos, dentro das quais as suas pareciam de menino, tamanha a segurança e o carinho recebidos. O outro, mesma idade, todo cuidados, bem mais baixo e muito magrelo dentro daquelas calças jeans apertadas de punk, do gigantesco cinto de couro com tachinhas e da miniblusa rosa.

- Hmmmm! Olha lá o jeitinho como eles se dão as mãos! E eu que achei que fossem irmãos.
- Tempos modernos! - Me limitei a dizer, enternecido com o carinho do casal gay e não querendo desapontar o velho ranzinza, que buscava divertir-se à custa da viadice alheia.

Das quatro enfermeiras que ali estavam trabalhando, uma me chamou a atenção. Magra, mulata, os crespos e bem tratados cabelos presos num coque acima do pescoço. Olhar e movimentos extremamente vivos, complacentemente simpáticos, deliciosamente sensuais. Torci pra que fossem aquelas mãozinhas a manusear minha bunda. As mãos da outra não... a outra devia dar injeções igual esmurrava o marido.

Escuto meu nome sendo chamado:

- Antônio Augusto!
- Eu aqui!
- A-ham! Muito bem. - Aproximou-se a mulata enfermeira. - O senhor queira me acompanhar à outra sala.
  Suas palavras tinham um leve sarcasmo. Percebi que ia gostar daquilo tudo.

Sorriso vai, sorriso vem, os olhares ficam. Ela pede para eu afrouxar a calça e me deitar de bruços.

- Primeiro o anti-inflamatório, que esse não dói.
- Manda brasa!
- Agora uma que fará você se lembrar de mim: a benzetacil!
- Manda brasa! Desde a operação de hemorróidas tenho absurda resistência pra dor!

A enfermeira sorriu. Apertou um pedaço de minha bunda entre seu polegar e indicador e aplicou a injeção. Não doeu. Levei um tapinha e ouvi de novo o comentário:

- Garanto que de noite você se lembrará de mim! E nada de pedir massagem pra namoradinha!

3 da manhã. Insônia. A febre não sumiu por completo. O Fluminense foi eliminado com um gol aos 45 minutos do segundo tempo. A namorada não apareceu. Não posso beber por causa da benzetacil. Me mexo no sofá, assistindo a uma sofrível reprise de MMA. Minha bunda dói.  Dói e coça. Minha bunda dói e coça e incomoda muito! A vida é uma merda mesmo! Tiro o cinto, enfio a mão dentro das calças. Coço a bunda e percebo algo grudado. Arranco, perdendo alguns pelos.

Era um band-aid com um número de telefone e um pequeno recado rabiscado:

"Adorei sua bunda. Jéssica".


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Plim Plim

Fui outro dia a um recital de poesias do poeta Geraldinho Carneiro. Qual a minha surpresa quando, além do poeta, me deparei com a musa. Não só a dele, mas com uma que nos acompanha na sala de jantar, nos consultórios de dentista e, quiçá, um dia, nas barbearias e banheiros.

Comovi-me com a situação: a musa a declamar as poesias de Geraldinho! Musas televisivas nunca haviam feito a minha cabeça, mas ali, quando os olhos dela se dirigiram ao breu do meu setor na platéia, eu me apaixonei: era óbvio que a musa declamava para mim!

E a cada bela poesia de incentivo ou aquele anjo ia descendo ao meu umbral, ou, enebriado, eu me elevava ao seu olimpo, içando-me pelos cabelos, com minhas próprias mãos, verdadeiro Barão de Münchhausen a sair da areia movediça. No delírio até cabelos eu tinha.

Escrevi, imediatamente, um poema à sua pessoa.

Acenderam-se as luzes, cessaram os aplausos. Me enchi com a coragem própria aos meninos idealistas que se lançam à guerra. Prostrei-me diante de Mariana Ximenes, com a resolução nos olhos e o poema na ponta da língua.

"É simples", pensei. "Declamo a poesia e a chamo para jantar!"

Quando a metralhadora de seus olhos encontrou-se com os meus, respirei fundo e...

_ Ma... Mariana... me dá um autotógrafo e tira uma fofoto comigo?


sábado, 14 de abril de 2012

A composição do ser humano



Antônio Augusto conversa com uma criança na sala de espera da UTI:

_ Você tem quantos anos?
_ 12.
_ Tá rezando por quê? Quem tá lá dentro?
_ Minha mãe. E você, tá com quem?
_ Eu? Ah, ninguém não... eu tava ali na proctologia e resolvi dar uma passeada. O que tem sua mãe?
_ Ela fez uma cirurgia. Botou um cateter pra tirar água do cérebro.
_ Hmmmm! Você sabia que a água é o maior componente do nosso corpo?
_ Ah é?
_ Sim. O ser humano é composto por 63% de hidrogênio e 26% de oxigênio. Depois tem mais 9% de carbono.
_ Só deu 98%.
_ 1,25% de nitrogênio, 0,25% de cálcio, 0,19% de fósforo, 0,04% de sódio e, finalmente, 0,00004% de ferro! Pronto!
_ 0,00004?
_ Perfeitamente.
_ Aí só deu 99,73% e alguns quebrados! O senhor tem certeza desses valores?
_ Tenho, sou professor de química. Você é bom em matemática, hein garoto?
_ É... dizem que sou meio superdotado. Mas e o restante? Os outros 0,27% que compõem o ser humano?
_ Não sei... a ciência não sabe. Nunca determinaram. É uma incógnita. Um mistério!

O garotinho olha pelo vidro e vê a mãe dormindo do outro lado.
Seus olhos adquirem um brilho incomum para uma mente de 12 anos de idade.

_ O que passa, moleque?
_ Será então que esse restante é a alma? O imponderável? Será que é Deus?????
_ Nah, meu filho... eu diria que é filha da putice mesmo.

sábado, 24 de março de 2012

É melhor não...


Saí da portaria de meu prédio de shortinho de corrida, sem camisa, texto do mestrado embaixo do braço, sunga e bronzeador nas mãos, quando escuto:
- Com licença!
- Opa!
- Eu sou a Sister Junko e essa a Sister da Silva, o senhor mora aqui?
- Eu moro aqui, já o Senhor eu não faço ideia!
- Hahaha! Mas nós sabemos onde, nós sabemos onde! No nosso templo! Gostaríamos de conversar um pouco com o senhor e depois vamos fazer uma oração. Você tem um tempinho?
- Olha, é melhor não... eu tava indo ao clube e preciso ler esse texto.
- Será muito rápido!
- É melhor não...
- Se o senhor quiser, podemos agendar uma visita para outro dia!
- Agendar? Hmmm.... vamos logo com isso! Façamos o seguinte: sentemos ali?


Caminhamos para um confortável banquinho circundado de pequenos e simpáticos arbustos. Sister Junko, de origem japonesa, sentou-se ao meu lado, uma mãozinha depositada sobre a outra, em cima das pernas delicadamente cruzadas. Muito santa, muito correta... muito bonita. Sister da Silva, negra, insegura, muda e olhando pro chão.


- Vocês são mórmons, né?
- As pessoas nos chamam assim. Mas preferimos nos chamar de membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos dias.
- Ah...
- O senhor tem religião?
- Duvido que Ele tenha.
- Hã?
- Não, não... sou agnóstico.
- O senhor sabia que Jesus foi enviado por Deus e que ele sofreu muito para expiar nossos pecados?
- Jesus... Jesus...
- Jesus!! O senhor não sabe quem é Jesus????? É este aqui, ó, na capa de nosso livro.
- Não, não... a senhorita deve estar enganada, esse aí não é Jesus Cristo. Não pode ser Jesus Cristo.
- Ora, mas como não!
- Não... Jesus Cristo, minha querida, era negão. (Sister da Silva tira os olhos do chão).
- Mas como???
- É... não era assim um Mussum, mas tava longe de ter esse cabelinho dourado e esses olhos de Frank Sinatra aí.
- O senhor está enganado! Olha ele aqui na cruz, onde foi pregado para salvar voc...
- Essa túnica! Essa túnica, por exemplo, onde ele tá enrolado, o colobium. Isso aí só apareceu no século VI depois Dele. Antes do século VI, Jesus aparecia peladão na cruz, com o pinto balangando e tudo. (Sister da Silva cobre o rosto).
- Oh! Mas o nosso senhor Jesus Cristo era puro!
- Era, era sim. As pessoas que olhavam para a sua imagem é que não eram! Sabe, naquela região os homens são conhecidos pelo taman... ah, deixa pra lá. 
- ...
Fato é que a Igreja ficou com medo e tampou o dito cujo, depois pintaram o cabelo do rapaz e enfiaram uma lente de contato nos olhos dele. (Sister da Silva arregala os olhos para os céus)
- Aqui está o nosso endereço, caso o senhor queira buscar mais conhecimento e um rumo para a sua vida. Obrigada pela oportunidade de disseminar a palavra do nosso Senhor. Adeus.

Sister Junko fez menção de levantar-se, Sister da Silva nem sabia mais onde estava. Segurei a mão da irmã japonesa:


- Mas nós não íamos fazer uma oração?
Sentando-se, a discípula da Igreja do nosso Senhor Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias espalmou as mãos e fechou os olhinhos:
- O Sacerdócio A....
- Eu fico imaginando... já pensou se Cristo, sem o paninho, começasse a ser adorado pelas mulheres como uma espécie de deus da fertilidade, um Príapo dos novos tempos?
- Príapo? - Sister da Silva saiu de seu silêncio, olhando-me nos olhos.
- É, um deus grego que vivia de pau duro.


Sister Janko já corria em direção à W3. Sister da Silva ia atrás, com um sorrisinho no canto da boca, posso até jurar! Peguei meu bronzeador e disse:
- Eu avisei que era melhor não...


Príapo, de Poussin. 
http://selavy.wordpress.com/2009/03/30/1203/ Informações sobre o quadro

domingo, 18 de março de 2012

A Dama de Ferro


Tudo acabou no dia em que fomos assistir Margaret Thatcher no cinema:

_Eu tenho de ser tratada como uma rainha! Igual no filme, ouviu??? COMO UMA RAINHA!

Foi isso que ouvi da boca dela, aos berros, quando levantei a voz, ante os constantes absurdos aos quais vinha sendo submetido.
E a frase veio com expressão de Dama de Ferro, quiçá do alto do trono, a olhar com ojeriza para a plebe ignara.

Ora... uma rainha busca súditos, não um amante. Busca servidão, não companheirismo. Na-na-ni-na-não!!!

Meses mais tarde, arrependida, me ofereceu o trono mais alto da família. Quis inverter a situação. Veio beijar a minha mão, como a demonstrar que eu também possuía sangue azul. Não adiantou.

Ela não sacou que, no amor, eu sou comunista.
E ela nem era a rainha! Só primeira ministra! 



terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Mignon



Napoleão tinha metro e meio mas para os russos até hoje é um gigante. Stalin era coxo e igualmente nanico... dominou a mentalidade de metade do globo até os anos 80, apavorou a outra. Getúlio foi baixinho até sair da vida, entrou colossal para a história. Os atarracados guaikurús deram uma surra nos espanhóis quando estes chegaram ali pelo que hoje é o Paraguai: domesticaram seus caballos e nunca foram colonizados. São retratados no velho mundo como jóqueis hercúleos.


A lista continua: Hitler, que subia em banquinhos atrás da mesa para discursar, levou as fronteiras do 3o Reich por quase toda a Europa. Até o Van Damme conquistou a Ilha de Caras!


Está demonstrado: os homens de baixa estatura, por complexo ou outra coisa, querem conquistar o mundo.


Já o meu mundo é conquistar uma baixinha!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O Sapo e o Escorpião

(ou de como ninguém foge de sua natureza) 


Olimpíadas de Munique, 1972

Quatro dias após o sequestro e assassinato de 11 atletas israelenses pelo grupo revolucionário palestino "Setembro Negro", estavam todos a postos, inclusive o Mossad, serviço de inteligência israelense, no Ginásio Ftäs Harden, à espera de um alento ante a recente desgraça. Toda a graciosidade dos movimentos das ginastas parecia, por um momento, fazer esquecer a política mundial.

A ginasta russa aterriza sobre seus pés tremelicando levemente. Ergue o queixo e empina o nariz. Os aplausos ecoam. Munique está feliz! Nastassja, a favorita, espera as notas.

1o jurado: 9.75
2o jurado: 9.4
3o jurado: 9.91
4o jurado: 7.1
5o jurado: 9.4

A pequenina e formosa atleta russa retira-se, pensando em qual erro mínimo não teria conseguido dissimular ante o olhar escrutinador daquele jurado...
Sob o som da Cavalgada das Valquírias, de Wagner, a atleta alemã toma o tablado. Poderosa, porém tensa, aterriza de maneira estabanada, após ir ao limite em sua última técnica, e dobra o calcanhar direito, torcendo-o imediatamente. Segura a dor e sorri, glacial.

1o jurado: 8.7
2o jurado: 8.75
3o jurado: 8.5
4o jurado: 10
5o jurado: 8.8

A menina de Israel, novata, carrega em seus ombros a responsabilidade de homenagear, com a medalha de ouro, seus colegas mortos. Encanta a todos com sua leveza e sobriedade. Pousa suavemente num gesto preciso e leva o ginásio à loucura! De olhos fechados, sabe, pela reação da platéia, que suas 3 primeiras notas foram um 10! Sentindo-se com a mão na medalha de ouro, abre os olhos e aguça os ouvidos.

O sistema de som do ginásio anuncia:
 4o jurado...       2,35!

Um homem na platéia aciona o walkie-talkie:
- Joshua, por favor, quem é o jurado número quatro?
- É aquele ali, chefe.
- Qual?
- Aquele ali, o do bigodinho...

E dessa maneira, 27 anos após forjar espetacularmente a sua morte, Adolf Hitler foi preso pelo Mossad.


A prova de que Adolf Hitler não morreu.



sexta-feira, 11 de novembro de 2011

The American Way of Life



Reinaldo Pereira era um cara ambicioso. Ambicioso e pragmático.
Não namorou Maria, colega de infância por quem tinha certo interesse, pois estudava em escola particular e ela em pública. Ambos iam ao colégio de ônibus.


Não noivou Patrícia, grávida de um filho seu, pois ambos eram caixas de banco. Ele já costurava relações para virar gerente: "Quantas clientes importantes posso conhecer??". Aos dezenove anos, comprou seu primeiro carro: um fusca.


Aos vinte trombou com Fernanda, quarentona, doutora em Antropologia pela USP. Ficaram juntos, sem maiores laços legais ou afetivos. Aos 27, Reinaldo já era doutor, substituindo Patrícia, que se aposentara da carreira e, em determinado grau, da vida. Nessa época ele dirigia um opalão 4.1 SS.


Hoje, amancebou-se com Suzana, militante histórica do PT e Ministra da Educação. Ele descolou, nepoticamente, o cargo de Secretário de Planejamento Escolar.Nem lembra ter sido militante da TFP nos anos 70, quando tudo que almejava era conhecer alguma gerente da Daslu.
Os dois não transam há dois meses...


Ele vai, todos os dias, com revistas sobre a Dilma Roussef ao banheiro. Sai barbeado, nariz em pé, sempre sorridente. Dirige-se ao trabalho, confortável em sua Mercedez, pensando em qual carro terá quando for o 1o presidente estrangeiro dos Estados Unidos.


domingo, 2 de outubro de 2011

A balada da Motociclista



Linda. Da cabeça às botas. Morena, magrinha, cabelos curtos talvez pelo cigarro sempre a tiracolo. Tinha um encanto um tanto masculino, para falar a verdade. Ombros largos e seios pequeninos. Tatuagem da Cruz de Ferro na virilha.


Montada em cima de mim, não rebolava. Nem pulava. Ia pra frente e pra trás, freneticamente, esticando meus braços o máximo que podia, com os dedos entrelaçados aos meus, na parede branca atrás de nós. Era como se ela me remasse, caiaque com guidão de Harley Davidson:
_Ruge!!!! Ruge esse motor entre as minhas coxas!!!
_Hein?
Mal perguntei levei um tapona na cara. Nem tive tempo de estranhar, levei outro:
_Cretino!
_Mas que diab... PAF!!!! Ah, é assim, é? Mexe, safada!!!
_Filho da puta!!!!
_Vai, sua vaca!! Sua escrota!!!!
_PAF! PAF!!! PAF!PAF!PAF!!!!!!!
_Monta em mim, sua motoqueira!!!!!!! M-O-T-O-Q-U-E-I-R-A!!!!!!


Ela se contorcia, agora com as mãos ao ar. A da esquerda livre, ao alto, e a da direita para frente, o pulso a acelerar uma moto imaginária.


Gozou e pulou de cima de mim. Como aqueles pilotos de motovelocidade nas quedas espetaculares foi direto ao banheiro. Exausto, eu adormeci.


As 7 da manhã acordei num sobressalto. Parecia apartamento à beira dos trilhos da Central do Brasil: tudo tremia, do quadro de James Dean à junção das coxas com a bunda de Manuela. Ela morava em cima do Sindicato dos Motociclistas...


Manuela se virou para mim quando eu calçava as meias:


_ Não quero te ver nunca mais!


Foi quando eu descobri que os xingamentos na cama tem lá os seus limites:  nunca chame de motoqueira uma motociclista!


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Imagem: google

quarta-feira, 18 de março de 2009

Policiando sentimentos



Preparando provas no butiquim blues. A banda passando os sons. A cantora, cujos belos ombros largos camuflam o desafino, pede, grave, mais agudo no microfone.


Não me concentro no meu ofício. Viajo nos pensamentos. Fernando Pessoa, pessoificando Ricardo Reis, diz que a poesia é a polícia do sentimento. Exercício racional e labutoso de colocar ritmo, métrica e forma, rédeas no turbilhão da alma.
Longe de ser escritor, estou ficando experiente em domar as coisas que sinto.
Que sinto só... solidão.