Escritos de Rafael Perfeito

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quinta-feira, 2 de maio de 2013

Cobogó



Em qual dos buraquinhos
desse cobogó
eu me posicionaria
para te ver melhor?

Cada um tem seus contras
seus prós
e oferecem pontos de vista
sobre um charme só.

Queria ser mil olhos
a se projetarem
teleguiados...
Bem ali!

Ai meu Deus...
em qual dos buraquinhos?




segunda-feira, 15 de abril de 2013

Palavra Câncer


De qual lugar surge a palavra
Antes de chegar à língua...
Percorrendo o caminho inverso
Do que nos dá vida?

A comida vai da boca à cloaca
A palavra, vomitada
Da cloaca à boca é parida.

Veja bem.
O que me alegra
Sai por meu membro rijo
Despejando, vivo
Em uma só pincelada
Todo o regozijo, contido,
Desta minha empreitada.

Ora!
Não há por que escrever
Se meu punho está ocupado
A me dar prazer.

Já o que me enoja
Acabrunha e empalidece
Torna-se o sumo de todo o meu sistema
Nervoso.
Sêmen de toda a minha rede
Neural.

Veneno cultivado no fígado
A que dói mais não é vociferada.
Goteja, lentamente urdida
A bílis por anos engendrada.

Destilada cada gota
Transforma-se em tinta
Cuja caneta é o canal.
Esporro a palavra câncer ao vento
Com o único intento
De me livrar do mal.

sábado, 13 de abril de 2013

Unfasten your Seat Belts!


Unfasten your seat belts
and fascinate yourselves!

Sente na janela e aproveite a vida.
Contemple-a de cima.
Veja o seu passado do alto
como lindas pequenas pessoas
no formigueiro do tempo.

Voe sem rumo
mas com coragem.
Tente aproximar-se do sol.
Pois um dia
depois de apertados os cintos,
quando já flácidos os pintos,
no piloto automático...

P
            U
                          T
                                    A
                                           Q
                                                 U
                                                     E
                                                        P  
                                                          A
                                                            R
                                                              I
                                                              U
                                                              !!!

Na derradeira
verdadeira hora H
só você saberá   s e    c  h  o  r  o  u      ou    se     s                          u.
                                                                              o    r     r     i

sábado, 7 de abril de 2012

Arbeleologia


Eis que aparece em meu caminho
a outrora perdida cidade
descortinando-se mansinho
ante esta tranquila vontade

Ando pelas ruas de mistério
com critério ergo suas ruínas
de um passado cheio de impropérios
paciente cirzo minhas rimas

E com as mãos vou tateando
descobrindo-te com cuidado
escavando até dentro quando
do seu íntimo estiver guardado

Explorando a suave donzela
da qual hoje conheço o prólogo
minha Atlântida linda Arbela
quero ser seu maior arqueólogo!


sábado, 17 de março de 2012

Narcóbito Hático



Dizem ser o hábito o narcótico da imaginação.
Por isso tenho o hábito de utilizar narcóticos.
Narcotizado, esqueço que o hábito é hábito.
Desabituado...
crio de montão!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Membrana Plasmática



Mulher
deixe-me sorver-te em calda
aproveitar-me de suas palavras melífluas
que ultrapassam
a membrana plasmática de meus valores.
Mudando-me de dentro para fora
viru(lentamente).
Sem vacina.
Sem cura.
Sem calcinhas.
 Nem pudores.

domingo, 2 de outubro de 2011

A balada da Motociclista



Linda. Da cabeça às botas. Morena, magrinha, cabelos curtos talvez pelo cigarro sempre a tiracolo. Tinha um encanto um tanto masculino, para falar a verdade. Ombros largos e seios pequeninos. Tatuagem da Cruz de Ferro na virilha.


Montada em cima de mim, não rebolava. Nem pulava. Ia pra frente e pra trás, freneticamente, esticando meus braços o máximo que podia, com os dedos entrelaçados aos meus, na parede branca atrás de nós. Era como se ela me remasse, caiaque com guidão de Harley Davidson:
_Ruge!!!! Ruge esse motor entre as minhas coxas!!!
_Hein?
Mal perguntei levei um tapona na cara. Nem tive tempo de estranhar, levei outro:
_Cretino!
_Mas que diab... PAF!!!! Ah, é assim, é? Mexe, safada!!!
_Filho da puta!!!!
_Vai, sua vaca!! Sua escrota!!!!
_PAF! PAF!!! PAF!PAF!PAF!!!!!!!
_Monta em mim, sua motoqueira!!!!!!! M-O-T-O-Q-U-E-I-R-A!!!!!!


Ela se contorcia, agora com as mãos ao ar. A da esquerda livre, ao alto, e a da direita para frente, o pulso a acelerar uma moto imaginária.


Gozou e pulou de cima de mim. Como aqueles pilotos de motovelocidade nas quedas espetaculares foi direto ao banheiro. Exausto, eu adormeci.


As 7 da manhã acordei num sobressalto. Parecia apartamento à beira dos trilhos da Central do Brasil: tudo tremia, do quadro de James Dean à junção das coxas com a bunda de Manuela. Ela morava em cima do Sindicato dos Motociclistas...


Manuela se virou para mim quando eu calçava as meias:


_ Não quero te ver nunca mais!


Foi quando eu descobri que os xingamentos na cama tem lá os seus limites:  nunca chame de motoqueira uma motociclista!


**************
Imagem: google

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O Holandês Voador





Lembro de quando quebraram a garrafa de champagne no cais e  me
z a r  p  a   r    a      m      em direção a Eldorado.
As pessoas acenavam e vertiam lágrimas.
Despediam-se das expectativas e coordenadas
com as quais, umas mais que as outras,
encheram meu galpão.
Só mesmo os meus próprios sonhos
ainda contrabalanceavam o peso
depositado na embarcação.


Observo os acenos pequenos... 


Deixei tudo para trás,
Capitão Nemo percorrendo os mares do cotidiano.
Enfrentando polvos gigantes!
Em nome de utopias
verdadeiras bússolas no horizonte.


Não demorou para 
com o escafandro da experiência
eu reconhecer suas carcaças
no fundo do oceano
há muito naufragadas.


Hoje
Navego nu no nevoeiro
Não há antagonistas,
não há o Peixe para o Velho.
Não há musas a sumir no panorama
enquanto as águas me encubram a vista.
O horizonte é tal qual
a um palmo de meus olhos.


Pesado. Impávido.
Vou descrevendo lenta
                                   e
                                      nau
                                           fragante
                                                           E
                                                                    L
                                                                            I
                                                                                   P
                                                                                       S
                                                                                           E         
em meu diário.


Antes afundasse num cabo de tormentas!
Um furo na consciência
que inundasse os meus porões
provocando um desastre ecológico
de psicológicas proporções.


Mas não...
sigo
               s  i   n   g    r    o
                                                s
                                                   a
                                                     n
                                                      g
                                                       r
                                                       o


morro!
a contagotas
num oceano de emoções.




*******
Referências: O Holandês Voador, O Velho e o Mar, Os Trabalhadores do Mar e 20.000 Léguas Submarinas
Imagem retirada do Google

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Que seja eterno enquanto dure


                                                                                                                                          Foto: Naiara Baptista


Foi assim... sem dormir
e no entanto
teria sido sonho?

Cabelinhos curvos
desencaracolando momentos tristonhos
descortinando sorrisos
com um narizinho a apontar para o céu!

Na seca
fizemos dança da chuva
sob teto de barraca
e até o céu, por um momento
do cerrado, da fumaça
quis fazer condensamento
chorar um pouco de pirraça!

Os galos não entenderam
e a todo instante
anunciavam o novo dia com seu canto.
E junto com as cigarras, em seu acalanto
nos diziam: muito obrigado...
por enquanto!

domingo, 4 de setembro de 2011

Crente




Aos teus cortejos não é grata
Nem nunca é dobrada na marra.
Não é ciência exata
Não é feito braço de guitarra!

Por mais que se encurrale, tente.
Ela finge aquele "boom"...
Milagra escaposamente!
Evita o mate em um!

Semitona a matemática
Escorre entre os dedos de qualquer amarra
E não vá pensando que adianta poesia abstrata
Nessas horas ela posa de cartesiana entusiasta!

Você que faz de crente
O maior dos ateus
E dobra qualquer pretendente
De joelhos aos desejos seus...

Mulher

Seja minha pelo amor de Deus!!!!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Antônio Bento

        
        O sansei Antônio Bento tinha 40 anos e mania de perseguição. Dentro de sua loucura, já insuportável, Bento pensou ter chegado a um desfecho muito lógico. Enganaria todos. Enganaria, inclusive,  sua paranóia esquizofrênica.
      Arrumou um cadáver no instituto de ciências e jogou seu carro ribanceira abaixo. Certificou-se de que o fogo destruíra tudo e depositou, ao longo do trajeto descendente, objetos íntimos. Inclusive o dedo mindinho no qual possuía inequívoca mancha. Deixou para trás um filho indiferente e uma mulher aliviada.
      Foi para o Japão. Arrumou passaporte, nova identidade. Começaria a vida do zero. Todos que um dia o conheceram o julgavam morto. Quem perseguiria, agora, Kazuki Satoshi Tatsuya?
     Três meses passaram-se felizes. Vivia como uma pessoa totalmente normal. Quando perdeu um emprego por cismar que seu gerente apertava demais os olhinhos, sinal claro de que o estava vigiando, teve que cortar gastos. Mudou o xampu, arrumou uma namorada de hábitos menos extravagantes e, talvez seu grande erro, abandonou o carro para andar de metrô. Ele havia, 20 anos antes, surtado, pela primeira vez, num metrô.


        
        Encarou o desafio. Sobreviver são ao metrô enterraria de vez a esperniante esquizofrenia. Aí, dentro de algum tempo, até ele esqueceria de que uma vez...   de que uma vez houve...    Antônio Bento.
       Saiu de casa. Suava frio gotas de nervoso e satisfação. O metrô estava lotado e ninguém parecia se dar conta de sua presença. Faltava uma estação para o destino. Encheu os pulmões, altivo, e sentiu-se no controle da situação. Com a face transtornada de prazer e autoconfiança, preparava-se para descer, quando pensou ter ouvido, pronunciado com sotaque japonês e ligeiro sarcasmo:

      "Bento."

        As pernas de outrora firmes passos cambalearam. O mundo todo, em silêncio profundo, depositou-se sobre seus ombros. Kazuki concentrou-se em identificar aquela voz. Teria ouvido bem?

      "Ô Beenntttôô!!!!!!!!"

        Nãoooooo!!!!!!
        Não era possível!!!! Em alto e bom som!

        "Ô BEEEEEENNNNNNNTTTTTTTÔÔÔÔÔÔÔÔ!!!!!"
Totalmente alucinado, Kazuki Satoshi Tatsuya olhou para todas as direções, mas a massa de japoneses o empurrou para fora do trem. Gritava, repetidamente: “Watashi wa Kazuki!!!!! Watashi wa Bento dewa arimasen!!!” * (Nota do tradutor: "Eu sou o Kazuki, porra! Eu não sou o Bento porra nenhuma, puta que os pariu!!")

    Correu para o banheiro mais próximo. Fitou-se no espelho. Percebeu, com terror, que Kazuki Satoshi Tatsuya encarava Antônio Bento. Ele havia falhado.

       
        Se jogou nos trilhos embaixo do trem que passava, certo de que a perseguição sofrida não era política, como sempre pensara, mas sim espiritual. E os espíritos o haviam descoberto ali, no Japão! E o chamavam pelo nome!

        Foi destroçado no chão sem saber que “Ben-tô”, em japonês, significa “marmita”.


************
                Figuras de personagens de filmes de Kurosawa, google.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Vulture Culture



Esfaqueie! Pise!
E depois anuncie os meus restos na feira
Para quem quiser comprar.

Vende-se, baratinho
moído e ensacado
sem distinção
pênis, tripas e coração.

Eis que, mais uma vez
o urubu enche a pança
e nem lhe cora a tez
fazer tanta lambança
com aquilo que não passou
pelo moedor de carnes
da sua censura.

Poço de altivez
não enxerga semelhança
e nem sequer uma vez
em sua moral balança
vê que também faz parte desse show.
Ó urubu
Aja com candura!

Pois o bom da amizade
É a não cobrança!


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Modigliani

Deitado na cama
na penumbra do quarto
observo você
em cuja bunda me farto.


Te sigo pelos cômodos
decorando seus passos
enxugo pêlos púbios
axilas e traços.


Ah, meu desejo.
Eu te conheço tanto.
Tu fantasias delírios
para conter o meu pranto.


É por isso que
no apartamento vazio
as mulheres, no cio,
têm cheiro
            sexo
               seios
                 e nexo.
Embora existam tanto
quanto a musa do quadro
no corredor.


Minha dama danada
perambula fagueira
na cozinha e banheira
de minha alma calada.


Ensonhado,
me viro sozinho...


me viro sozinho na cama.

Imagem:Belle Romaine, Modigliani.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Pernas Cruzadas



No cruzar das pernas alvas
Joelhos superpostos escondem
Um mundo velado, vermelho,
Veludo suado.


Para lá adentrar é preciso,
Jogada ao pé do ouvido,
Apenas certeira fagulha
Que desencadeie feixes jorrados
pela cintura.


Libertando hormônios,
abrindo sorrisos,
queimando bochechas,
molhando aberturas. 




No descruzar das pernas trêmulas
Dois corpos interagem
Como dedos e instrumento.
Sendo tudo ritmo, melodia,
Mu-si-ca-li-da-de-ca-dên-ci-a
desaguada na cama.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Policiando sentimentos



Preparando provas no butiquim blues. A banda passando os sons. A cantora, cujos belos ombros largos camuflam o desafino, pede, grave, mais agudo no microfone.


Não me concentro no meu ofício. Viajo nos pensamentos. Fernando Pessoa, pessoificando Ricardo Reis, diz que a poesia é a polícia do sentimento. Exercício racional e labutoso de colocar ritmo, métrica e forma, rédeas no turbilhão da alma.
Longe de ser escritor, estou ficando experiente em domar as coisas que sinto.
Que sinto só... solidão.