São 18h30 de uma terça-feira. Suas mãos agarram firmemente a barra
de apoio no teto do metrô. Equilibra-se como pode entre vários pulsos e corpos chacoalhantes. Sente a vista pesada, o corpo cansado. Pensa naquela rotina diária, pensa na cerveja no congelador e no que o aguarda em casa, à noite...
...acorda num sobressalto. Os joelhos dobrados fizeram com que o peso do corpo recaísse todo sobre as mãos agarradas em cima. O cotovelo quase acertara o rosto de gentil senhora a seu lado. Sem entender direito o que havia acontecido, percebe sorrisos nos cantos de várias bocas ao redor. Alguns abafavam o riso entre as mãos:
_ Deus!! Eu dormi em pé no metrô! - pensou enquanto olhava as olheiras negras no reflexo do vidro.
Isso nunca lhe havia acontecido antes. Estaria trabalhando demais? Dormindo de menos? Talvez fosse a idade... estava chegando aos 30. Burnout? Isso! Devia ser a síndrome de Burnout, aquele stress típico de professores.
Limpando a saliva que lhe escorria já pelo pescoço, pegou a bicicleta e desceu na estação de Águas Claras.
No breve caminho até sua casa pôs-se a relembrar seu dia. Mais um arrastado dia sem clímax, tão comum aos professores:
6 da manhã. Metrô. Escola 1. Cantar o hino nacional. Aplicar prova, recolher prova. Dar esporro no aluno dos hormônios em polvorosa. Sorrir para a mãe chata que deposita todos os problemas do filho asperger na sua conta.
Ônibus, chope com o pai num almoço de 30 minutos. Ônibus, escola 2. Exvai-se a tarde inteira...
Enfim, desfalecer no metrô. Aquele que se achava em boa forma havia dormido em pé no metrô! Havia encarado as próprias fundas olheiras no reflexo do vidro e pensara no que o aguardava, à noite, em seu quarto.
Chega em casa. Esquenta o óleo para um bife à milanesa ao mesmo tempo em que come feijão e arroz direto do pote da geladeira... escola 3.
Finalmente, as 11 da noite, volta para casa. Pega a cerveja gelada. Na cama o aguardam, juntinhas, duas de suas alunas, uma tocando a outra. São Alícia Kelly Andrade, 19 anos e Betina Roberta da Conceição Neres, 34. A primeira, morena, mais despojada, mostra a malemolência (neologismo?) de quem nunca precisou trabalhar. Tem traços finos e longilíneos. A segunda, uma empregada doméstica semianalfabeta, de traços grosseiros, gordinhos e decididos, mostra alguns de seus predicados.
Ao entrar no quarto, mineirinho come quieto, o professor exclama: “Nüü Senhora!”.
Sua expressão transtorna-se. Pega as duas que estão juntas em sua cama e violentamente as joga na escrivaninha. “É hoje!”. Avança para cima de Alícia Kelly e, após uma boa respirada, abre as primeiras páginas das mais de 300 provas que tem de corrigir.

Sobre Burnout: http://pt.wikipedia.org/wiki/SÃndrome_de_Burnout
Sobre Asperger: http://pt.wikipedia.org/wiki/SÃndrome_de_Asperger