Raul

Raul

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Mignon



Napoleão tinha metro e meio mas para os russos até hoje é um gigante. Stalin era coxo e igualmente nanico... dominou a mentalidade de metade do globo até os anos 80, apavorou a outra. Getúlio foi baixinho até sair da vida, entrou colossal para a história. Os atarracados guaikurús deram uma surra nos espanhóis quando estes chegaram ali pelo que hoje é o Paraguai: domesticaram seus caballos e nunca foram colonizados. São retratados no velho mundo como jóqueis hercúleos.

A lista continua: Hitler, que subia em banquinhos atrás da mesa para discursar, levou as fronteiras do 3o Reich por quase toda a Europa. Até o Van Damme conquistou a Ilha de Caras!

Está demonstrado: os homens de baixa estatura, por complexo ou outra coisa, querem conquistar o mundo. 

Já o meu mundo é conquistar uma baixinha!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Membrana Plasmática



Mulher
deixe-me sorver-te em calda
aproveitar-me de suas palavras melífluas
que ultrapassam
a membrana plasmática de meus valores.
Mudando-me de dentro pra fora
viru(lentamente).
Sem vacina.
Sem cura...
 sem pudores.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O Sapo e o Escorpião (ou de como ninguém foge de sua natureza)


Olimpíadas de Munique, 1972

Quatro dias após o sequestro e assassinato de 11 atletas israelenses pelo grupo revolucionário palestino "Setembro Negro", estavam todos a postos, inclusive o Mossad, serviço de inteligência israelense, no Ginásio Ftäs Harden, à espera de um alento ante a recente desgraça. Toda a graciosidade dos movimentos das ginastas parecia, por um momento, fazer esquecer a política mundial, tão em voga nos últimos dias.

A ginasta russa aterriza sobre seus pés tremelicando levemente. Ergue o queixo e empina o nariz. Os aplausos ecoam. Munique está feliz! Nastassja, a favorita, espera as notas.


1o jurado: 9.75

2o jurado: 9.4

3o jurado: 9.91

4o jurado: 7.1

5o jurado: 9.4


A pequenina e formosa atleta russa retira-se, pensando em qual erro mínimo não teria conseguido dissimular ante o olhar escrutinador daquele jurado...
Sob o som da Cavalgada das Valquírias, de Wagner, a atleta alemã toma o tablado. Poderosa, porém tensa, aterriza sobre seus pés de maneira estabanada, após ir ao limite em sua última técnica, e dobra o calcanhar direito, torcendo-o imediatamente. Segura a dor e sorri, glacial.


1o jurado: 8.7

2o jurado: 8.75

3o jurado: 8.5

4o jurado: 10

5o jurado: 8.8


A menina de Israel, novata, carrega em seus ombros a responsabilidade de homenagear seus colegas mortos com a medalha de ouro. Encanta a todos com sua leveza e sobriedade. Pousa suavemente num gesto preciso e leva o ginásio à loucura! De olhos fechados, sabe, pela reação da platéia, que suas 3 primeiras notas foram um 10! Sentindo-se com a mão na medalha de ouro, abre os olhos e mira o placar.

 4o jurado: 2,35!


Um homem na platéia aciona o walkie-talkie:

_ Joshua, por favor, quem é o jurado número quatro?

_ É aquele ali, chefe.

_ Qual?

_Aquele ali, o do bigodinho...


Foi dessa maneira que Adolf Hitler foi preso pelo Mossad, 27 anos após forjar espetacularmente a sua morte.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Samba Enredo


Chegou ao samba sem nem saber como. Viu o endereço em casa e em 40 minutos estava lá. Sua determinação era tamanha que, mesmo sem conhecer o local, chegou sem errar o caminho. Ao sair do carro, atinou para este fato. Quando estava paranóico tinha o costume de errar todos os caminhos, mesmo os mais familiares, pois fazia curvas no asfalto com a mesma inconstância que ideias psicóticas e sem nexo lhe agitavam o cérebro.

Do estacionamento escutou o zumbido do samba e o burburinho excitado das pessoas cantando e dançando. À mesa dos músicos sentavam umas 10 pessoas, entre eles, imerso incompreendido em seus acordes, o violonista barbudo, promissor compositor da cidade cuja amizade vinha de longa data. Sobressaíam o lamento incessante da cuíca e a voz quilombola da garota branca a cantar: "tire o seu sorriso  do caminho, que eu quero passar com a minha dor..."

Não entendia como as pessoas podiam se divertir no samba. Não entendia como ele próprio se esbaldara nos sambas da vida, ao som daquele batuque em transe dos rituais negros e do choro da cuíca, cujos gemidos retumbavam em cada canto do seu cérebro enquanto seus olhos injetados varriam o lugar atrás daquela puta.

As meninas rosadas e de cabelos lisos tentando vibrar o corpo como os negros e a quase completa ausência destes no local - com a exceção dele mesmo e de duas ou três mulatas riquinhas - davam à situação, e era essa a realidade de Brasília, um ar insólito, de banzo às avessas: naquele momento era o samba quem sentia falta dos negros.

O salão era espaçoso e sob as luzes com efeitos vermelhos ele era o único a sentir-se miúdo. E foi ali, dentro daquela existência mínima, que o solilóquio de cuíca em seus sentidos ganhou companhia: o batuque surdo e desregrado de seu coração acelerando ante o inevitável. Rogério, misturado ao odor de corpos estimulados, não focava mais rostos, não reconhecia mais ninguém: atravessava o samba trombando nos casais sorridentes. Parecia estar no meio da bateria da Mangueira, aquela que nunca marca os contratempos.

Enfim, parou no meio do salão, agora com os olhos focados e os ombros desanimados. Ensurdeceu. O único som que ouvia era do esvoaçar dos cabelos de Jandira, a relar suavemente o pescoço, quando ela oferecia a nuca a outro homem...

naquele minuto a vida de Rogério perdeu seu enredo.


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

The American Way of Life


Reinaldo Pereira era um cara ambicioso. Ambicioso e pragmático.
Não namorou Maria, colega de infância por quem tinha certo interesse, pois estudava em escola particular e ela em pública. Ambos iam ao colégio de ônibus.

Não noivou Patrícia, grávida de um filho seu, pois ambos eram caixas de banco. Ele já costurava relações para virar gerente: "Quantas clientes importantes posso conhecer??". Aos dezenove anos, comprou seu primeiro carro: um fusca.

Aos vinte trombou com Fernanda, quarentona, doutora em Antropologia pela USP. Ficaram juntos, sem maiores laços legais ou afetivos. Aos 27, Reinaldo já era doutor, substituindo Patrícia, que se aposentara da carreira e, em determinado grau, da vida. Nessa época ele dirigia um opalão 4.1 SS.

Hoje, amancebou-se com Suzana, militante histórica do PT e Ministra da Educação. Ele descolou, nepoticamente, o cargo de Secretário de Planejamento Escolar.Nem lembra ter sido militante da TFP nos anos 70, quando tudo que almejava era conhecer alguma gerente da Daslu.
Os dois não transam há dois meses...

Ele vai, todos os dias, com revistas sobre a Dilma Roussef ao banheiro. Sai barbeado, nariz em pé, sempre sorridente. Dirige-se ao trabalho, confortável em sua Mercedez, pensando em qual carro terá quando for o 1o presidente estrangeiro dos Estados Unidos.

domingo, 2 de outubro de 2011

A balada da Motociclista



Linda. Da cabeça às botas. Morena, magrinha, cabelos curtos talvez pelo cigarro sempre a tiracolo. Tinha um encanto um tanto masculino, para falar a verdade. Ombros largos e seios pequeninos. Tatuagem da Cruz de Ferro na virilha.

Montada em cima de mim, não rebolava. Nem pulava. Ia pra frente e pra trás, freneticamente, esticando meus braços o máximo que podia, com os dedos entrelaçados aos meus, na parede branca atrás de nós. Era como se ela me remasse, caiaque com guidão de Harley Davidson:
_Ruge!!!! Ruge esse motor entre as minhas coxas!!!
_Hein?
Mal perguntei levei um tapona na cara. Nem tive tempo de estranhar, levei outro:
_Cretino!
_Mas que diab... PAF!!!! Ah, é assim, é? Mexe, safada!!!
_Filho da puta!!!!
_Vai, sua vaca!! Sua escrota!!!!
_PAF! PAF!!! PAF!PAF!PAF!!!!!!!
_Monta em mim, sua motoqueira!!!!!!! M-O-T-O-Q-U-E-I-R-A!!!!!!

Ela se contorcia, agora com as mãos ao ar. A da esquerda livre, ao alto, e a da direita para frente, o pulso a acelerar uma moto imaginária.

Gozou e pulou de cima de mim. Como aqueles pilotos de motovelocidade nas quedas espetaculares foi direto ao banheiro. Exausto, eu adormeci.

As 7 da manhã acordei num sobressalto. Parecia apartamento à beira dos trilhos da Central do Brasil: tudo tremia, do quadro de James Dean à junção das coxas com a bunda de Manuela. Ela morava em cima do Sindicato dos Motociclistas...

Manuela se virou para mim quando eu calçava as meias:

_ Não quero te ver nunca mais!

Foi quando eu descobri que os xingamentos na cama tem lá os seus limites:  nunca chame de motoqueira uma motociclista!

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Imagem: google

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O Holandês Voador



L embro de quando quebraram a garrafa de champagne no cais
e  me    z  a  r   p   a    r      a      m      em direção a Eldorado.

As pessoas acenavam e vertiam lágrimas.

Despediam-se das expectativas e coordenadas
com as quais, umas mais que as outras,
encheram meu galpão.
Só mesmo os meus próprios sonhos
ainda contrabalanceavam o peso
depositado na embarcação.

Observo os acenos pequenos... 

Deixei tudo para trás,
Capitão Nemo percorrendo os mares do cotidiano.
Enfrentando polvos gigantes!
Em nome de utopias
verdadeiras bússolas no horizonte.

Não demorou para 
com o escafandro da experiência
eu reconhecer suas carcaças
no fundo do oceano
há muito naufragadas.

Hoje
Navego nu no nevoeiro
Não há antagonistas,
não há o Peixe para o Velho.
Não há musas a sumir no panorama
enquanto as águas me encubram a vista.
O horizonte é tal qual
a um palmo de meus olhos.

Pesado. Impávido.
Vou descrevendo lenta
                                   e
                                      nau
                                           fragante
                                                           E
                                                                    L
                                                                             I
                                                                                    P
                                                                                        S
                                                                                            E         
em meu diário.

Antes afundasse num cabo de tormentas!
Um furo na consciência
que inundasse os meus porões
provocando um desastre ecológico
de psicológicas proporções.

Mas não...
sigo
               s  i   n   g    r    o
                                                s
                                                   a
                                                     n
                                                      g
                                                       r
                                                       o


morro!
a contagotas
num oceano de emoções.

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Imagem retirada do Google.