Escritos de Rafael Perfeito

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Que seja eterno enquanto dure


                                                                                                                                          Foto: Naiara Baptista


Foi assim... sem dormir
e no entanto
teria sido sonho?

Cabelinhos curvos
desencaracolando momentos tristonhos
descortinando sorrisos
com um narizinho a apontar para o céu!

Na seca
fizemos dança da chuva
sob teto de barraca
e até o céu, por um momento
do cerrado, da fumaça
quis fazer condensamento
chorar um pouco de pirraça!

Os galos não entenderam
e a todo instante
anunciavam o novo dia com seu canto.
E junto com as cigarras, em seu acalanto
nos diziam: muito obrigado...
por enquanto!

domingo, 4 de setembro de 2011

Crente




Aos teus cortejos não é grata
Nem nunca é dobrada na marra.
Não é ciência exata
Não é feito braço de guitarra!

Por mais que se encurrale, tente.
Ela finge aquele "boom"...
Milagra escaposamente!
Evita o mate em um!

Semitona a matemática
Escorre entre os dedos de qualquer amarra
E não vá pensando que adianta poesia abstrata
Nessas horas ela posa de cartesiana entusiasta!

Você que faz de crente
O maior dos ateus
E dobra qualquer pretendente
De joelhos aos desejos seus...

Mulher

Seja minha pelo amor de Deus!!!!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Olhar Canino


Entrou naquele mar de sinucas conhecido como Área 51 uma menina de uns 18 anos, estourando. Era, teoricamente, a idade mínima permitida.

Olhei-a de baixo a cima. Sapatinho raso, preto, daqueles de bonequinhas japonesas, com brancas meias finas. A saia preta não mostrava muito, afinal seus quadris ainda não haviam adquirido nem a desenvoltura nem a amplitude daqueles de mulheres mais experientes. Acima do umbiguinho à mostra, uma blusa apertada, que lhe dava um ar ainda mais infantil, com certeza por causa da estampa: um cachorrinho de língua azul, com pidões olhinhos dentro de quadrados óculos vermelhos.

Comi-a com os olhos e, curiosamente, seus olhos procuraram os meus. Da linha de meu olhar de Humbert Humbert não mais saíram.

Tomei sua direção. A pouca idade não resistiria a um boêmio de plantão.
Olhos nos olhos (céus, seus olhos não desviavam!) percorri a distância que nos separava:

_Olá!

Demonstrando total surpresa, num rosto que mal reconheci, a menina, como se  me visse pela primeira vez, me deu as costas,  tremendo a boca com nojo e desprezo.
Com os pés no chão, percebi: não era ela quem me fitava!


Eram os bicos de seus seios, tal qual olhar de anjo em teto de igreja, a me perseguir por todos os cantos,  de dentro dos óculos quadrados de sua blusa, disfarçados de olhar canino!






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Referências: Lolita, Vladimir Nabokov

domingo, 14 de agosto de 2011

Hipocondríaco



O espelho não sabe.
O médico auscultou e não detectou. Disse: é psicossomático!
O polígrafo não percebeu: menti descaradamente: não te amo, não te amo e não te amo! Os fios pregados em meu peito, em meu saco, em mim todo não traduziram nenhum indício de falsidade.
No escrutínio de minha retina, na análise científica de minha íris, bulhufas.
Finalmente Pai João me deu um passe e nada teve a declarar.
O cachorro, daqueles que farejam até câncer, pulou de alegria da mesma maneira quando cheguei em casa, como se hoje fosse ontem, como se hoje fosse um ano atrás.


Mas não é.


Eu mudei. Eu sei disso.
Eu sei que estou doente.


Sinto que minha diástole não atinge a expansão de outrora, milimetricamente encolhida, apequenando meus sonhos. A sístole também, aperta um pouco mais, quase imperceptível constrição dos meus sentidos.


É como se minha voz interior estivesse com calo nas cordas vocais, vibrando menos para não doer aos ouvidos, agora também ligeiramente mais surdos.


O tato? Tenho certeza absoluta de que as correntes elétricas que saem da ponta de meus dedos chegam ao meu córtex cerebral primário com milissegundos de atraso. A lembrança da sua pele viaja mais rápido,  deixando áspero tudo o que toco.


Me corto para ver se meu sangue está vermelho. É, meus olhos ainda percebem essa cor...


Meu coração é que ficou daltônico.
Minha alma é que está com AIDS.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A Concha



Como o barulho das ondas a bater na areia e da espuma a dissipar-se, eu, concha aos ouvidos seus, deposito palavras, grande e poderoso como o oceano.
Beijo suas orelhas, puxando seus sentidos tal qual correnteza a levar pro mar incautos banhistas bêbados.
Como a água de Ipanema nos corpos das garotas sob sol escaldante, melo-te com a poluiçao de meus pensamentos!


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Perdas



Há mais ou menos um mês, entrei com o carro na garagem e ela estava lá, saco de pão na mão, no meio do caminho, entre o elevador e a vaga do 701. Estática. Olhando pro carro... que não mais existia.

Tirei as compras do porta malas e a senhora, perfeito penteado grisalho, olhando pro nada, no meio do caminho... que não existia.

Passei por perto e o elevador chegou. Ela, imperturbável, não mexera nem o sobrolho, olhando pro nada... que era tudo que via.

No térreo o porteiro, boleto do condomínio na mão: “Rafael, tá sabendo? O Sr. Djalma teve um ataque cardíaco ontem à noite!”.

Hoje, dia ensolarado, passei de bicicleta por ela. Falava sozinha. Em seu caminho não havia árvores, não havia sombras, não havia nada.

Só um sorriso protocolado, amarelo... e um saco de pão.



quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Praticidade

Há dois tipos de pessoas: as práticas e as não práticas.

Rafael não era prático. Descobriu quando, aos 15 anos, em viagem à Disney, trocou olhares diabólicos com uma divina loirinha nativa. Sentiu-se um verdadeiro Axl Rose, mas tanto aquilo era novo, tanto mexeu com ele, que teve uma caganeira. Ainda trocando olhares, foi, da maneira mais discreta que a urgência permitiu, ao banheiro. Passou 20 minutos se limpando, até o cu ficar impecavelmente limpo e a menina indubitavelmente perdida.

Já Antônio Augusto... ah, o Antônio Augusto deu seu primeiro beijo todo cagado!