Escritos de Rafael Perfeito

domingo, 2 de outubro de 2011

A balada da Motociclista



Linda. Da cabeça às botas. Morena, magrinha, cabelos curtos talvez pelo cigarro sempre a tiracolo. Tinha um encanto um tanto masculino, para falar a verdade. Ombros largos e seios pequeninos. Tatuagem da Cruz de Ferro na virilha.


Montada em cima de mim, não rebolava. Nem pulava. Ia pra frente e pra trás, freneticamente, esticando meus braços o máximo que podia, com os dedos entrelaçados aos meus, na parede branca atrás de nós. Era como se ela me remasse, caiaque com guidão de Harley Davidson:
_Ruge!!!! Ruge esse motor entre as minhas coxas!!!
_Hein?
Mal perguntei levei um tapona na cara. Nem tive tempo de estranhar, levei outro:
_Cretino!
_Mas que diab... PAF!!!! Ah, é assim, é? Mexe, safada!!!
_Filho da puta!!!!
_Vai, sua vaca!! Sua escrota!!!!
_PAF! PAF!!! PAF!PAF!PAF!!!!!!!
_Monta em mim, sua motoqueira!!!!!!! M-O-T-O-Q-U-E-I-R-A!!!!!!


Ela se contorcia, agora com as mãos ao ar. A da esquerda livre, ao alto, e a da direita para frente, o pulso a acelerar uma moto imaginária.


Gozou e pulou de cima de mim. Como aqueles pilotos de motovelocidade nas quedas espetaculares foi direto ao banheiro. Exausto, eu adormeci.


As 7 da manhã acordei num sobressalto. Parecia apartamento à beira dos trilhos da Central do Brasil: tudo tremia, do quadro de James Dean à junção das coxas com a bunda de Manuela. Ela morava em cima do Sindicato dos Motociclistas...


Manuela se virou para mim quando eu calçava as meias:


_ Não quero te ver nunca mais!


Foi quando eu descobri que os xingamentos na cama tem lá os seus limites:  nunca chame de motoqueira uma motociclista!


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Imagem: google

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O Holandês Voador





Lembro de quando quebraram a garrafa de champagne no cais e  me
z a r  p  a   r    a      m      em direção a Eldorado.
As pessoas acenavam e vertiam lágrimas.
Despediam-se das expectativas e coordenadas
com as quais, umas mais que as outras,
encheram meu galpão.
Só mesmo os meus próprios sonhos
ainda contrabalanceavam o peso
depositado na embarcação.


Observo os acenos pequenos... 


Deixei tudo para trás,
Capitão Nemo percorrendo os mares do cotidiano.
Enfrentando polvos gigantes!
Em nome de utopias
verdadeiras bússolas no horizonte.


Não demorou para 
com o escafandro da experiência
eu reconhecer suas carcaças
no fundo do oceano
há muito naufragadas.


Hoje
Navego nu no nevoeiro
Não há antagonistas,
não há o Peixe para o Velho.
Não há musas a sumir no panorama
enquanto as águas me encubram a vista.
O horizonte é tal qual
a um palmo de meus olhos.


Pesado. Impávido.
Vou descrevendo lenta
                                   e
                                      nau
                                           fragante
                                                           E
                                                                    L
                                                                            I
                                                                                   P
                                                                                       S
                                                                                           E         
em meu diário.


Antes afundasse num cabo de tormentas!
Um furo na consciência
que inundasse os meus porões
provocando um desastre ecológico
de psicológicas proporções.


Mas não...
sigo
               s  i   n   g    r    o
                                                s
                                                   a
                                                     n
                                                      g
                                                       r
                                                       o


morro!
a contagotas
num oceano de emoções.




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Referências: O Holandês Voador, O Velho e o Mar, Os Trabalhadores do Mar e 20.000 Léguas Submarinas
Imagem retirada do Google

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Que seja eterno enquanto dure


                                                                                                                                          Foto: Naiara Baptista


Foi assim... sem dormir
e no entanto
teria sido sonho?

Cabelinhos curvos
desencaracolando momentos tristonhos
descortinando sorrisos
com um narizinho a apontar para o céu!

Na seca
fizemos dança da chuva
sob teto de barraca
e até o céu, por um momento
do cerrado, da fumaça
quis fazer condensamento
chorar um pouco de pirraça!

Os galos não entenderam
e a todo instante
anunciavam o novo dia com seu canto.
E junto com as cigarras, em seu acalanto
nos diziam: muito obrigado...
por enquanto!

domingo, 4 de setembro de 2011

Crente




Aos teus cortejos não é grata
Nem nunca é dobrada na marra.
Não é ciência exata
Não é feito braço de guitarra!

Por mais que se encurrale, tente.
Ela finge aquele "boom"...
Milagra escaposamente!
Evita o mate em um!

Semitona a matemática
Escorre entre os dedos de qualquer amarra
E não vá pensando que adianta poesia abstrata
Nessas horas ela posa de cartesiana entusiasta!

Você que faz de crente
O maior dos ateus
E dobra qualquer pretendente
De joelhos aos desejos seus...

Mulher

Seja minha pelo amor de Deus!!!!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Olhar Canino


Entrou naquele mar de sinucas conhecido como Área 51 uma menina de uns 18 anos, estourando. Era, teoricamente, a idade mínima permitida.

Olhei-a de baixo a cima. Sapatinho raso, preto, daqueles de bonequinhas japonesas, com brancas meias finas. A saia preta não mostrava muito, afinal seus quadris ainda não haviam adquirido nem a desenvoltura nem a amplitude daqueles de mulheres mais experientes. Acima do umbiguinho à mostra, uma blusa apertada, que lhe dava um ar ainda mais infantil, com certeza por causa da estampa: um cachorrinho de língua azul, com pidões olhinhos dentro de quadrados óculos vermelhos.

Comi-a com os olhos e, curiosamente, seus olhos procuraram os meus. Da linha de meu olhar de Humbert Humbert não mais saíram.

Tomei sua direção. A pouca idade não resistiria a um boêmio de plantão.
Olhos nos olhos (céus, seus olhos não desviavam!) percorri a distância que nos separava:

_Olá!

Demonstrando total surpresa, num rosto que mal reconheci, a menina, como se  me visse pela primeira vez, me deu as costas,  tremendo a boca com nojo e desprezo.
Com os pés no chão, percebi: não era ela quem me fitava!


Eram os bicos de seus seios, tal qual olhar de anjo em teto de igreja, a me perseguir por todos os cantos,  de dentro dos óculos quadrados de sua blusa, disfarçados de olhar canino!






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Referências: Lolita, Vladimir Nabokov

domingo, 14 de agosto de 2011

Hipocondríaco



O espelho não sabe.
O médico auscultou e não detectou. Disse: é psicossomático!
O polígrafo não percebeu: menti descaradamente: não te amo, não te amo e não te amo! Os fios pregados em meu peito, em meu saco, em mim todo não traduziram nenhum indício de falsidade.
No escrutínio de minha retina, na análise científica de minha íris, bulhufas.
Finalmente Pai João me deu um passe e nada teve a declarar.
O cachorro, daqueles que farejam até câncer, pulou de alegria da mesma maneira quando cheguei em casa, como se hoje fosse ontem, como se hoje fosse um ano atrás.


Mas não é.


Eu mudei. Eu sei disso.
Eu sei que estou doente.


Sinto que minha diástole não atinge a expansão de outrora, milimetricamente encolhida, apequenando meus sonhos. A sístole também, aperta um pouco mais, quase imperceptível constrição dos meus sentidos.


É como se minha voz interior estivesse com calo nas cordas vocais, vibrando menos para não doer aos ouvidos, agora também ligeiramente mais surdos.


O tato? Tenho certeza absoluta de que as correntes elétricas que saem da ponta de meus dedos chegam ao meu córtex cerebral primário com milissegundos de atraso. A lembrança da sua pele viaja mais rápido,  deixando áspero tudo o que toco.


Me corto para ver se meu sangue está vermelho. É, meus olhos ainda percebem essa cor...


Meu coração é que ficou daltônico.
Minha alma é que está com AIDS.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A Concha



Como o barulho das ondas a bater na areia e da espuma a dissipar-se, eu, concha aos ouvidos seus, deposito palavras, grande e poderoso como o oceano.
Beijo suas orelhas, puxando seus sentidos tal qual correnteza a levar pro mar incautos banhistas bêbados.
Como a água de Ipanema nos corpos das garotas sob sol escaldante, melo-te com a poluiçao de meus pensamentos!