
Não conseguindo se livrar da lembrança da ex namorada, Tomas adotou peculiar processo de exorcismo. Costumava, uma vez por dia, em hora não marcada e quase sempre imprópria, falar de sopetão, com a fronte séria e a mesma emoção:
_ Aquela vaca filha da puta!!!
Era médico. E era dos bons. Comunista, atendia pessoas comuns em Praga. Não só por ideologia, também o governo o obrigava.
Certa feita a paciente pálida emudeceu, quando, junto ao toque frio e quase atrevido do estetoscópio em seu seio, ouviu, pronunciado entre dentes cerrados, com a mesma emoção:
_ Aquela vaca filha da puta!!!
Solitário, parava de frente para o espelho, inteiramente nu. E após segundos de devaneios, sem saber o que fazia ali, percebia sua imagem a pronunciar, à sua total revelia, o olhar fixo ao seu e com a mesma emoção:
_ Aquela vaca filha da puta!!!
Fora esses pequenos momentos assustadores, mais para ele do que para quem ouvia, Tomas praticava a leveza de seu ser. Perdia-se no cruzar de pernas da paciente; ao dar o ombro amigo à conhecida sofrida; ao galantear o desfile da morena na faixa de pedestre.
Auscultando seu próprio coração, ficou feliz ao perceber, tranquilamente, que de uns tempos pra cá vinha sarando. Os momentos não eram mais impróprios, a emoção nem sempre a mesma. Mas quando via a pia suja de pratos, cervejas e restos de comida, não podia conter um comentário cheio de banzo e machismo:
_ Aquela vaca filha da puta!!!
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